A Formação da Personalidade e o Comportamento Violento: argumentos para a aproximação da teoria sociológica da realidade e a teoria psicossocial

Artigo publicado na Revista Augustus, v. 12, n. 4, 2013

 

Maria Angélica Oliveira Gabriel
Mestre em Psicologia
Professora adjunta e coordenadora do curso de Psicologia da UNISUAM

Mauricio Castanheira
Doutor em Filosofia
Professor Assistente da UNISUAM
Professor Associado do CEFET

RESUMO

O presente estudo apresenta duas diferentes abordagens teóricas que tratam do processo de formação da personalidade e propiciam conhecimentos para compreensão da construção do comportamento violento, com o objetivo de identificar fatores explicativos para compreensão desse tipo de comportamento na sociedade atual. No aspecto metodológico, foi realizado um levantamento bibliográfico da teoria sociológica da formação do eu e da teoria psicossexual de Freud, com o intuito de conhecer fenômenos sociais e intrapsíquicos que interferem na formação da personalidade. Em um segundo momento, foi analisado o comportamento violento à luz dessas teorias. Considerou-se que o meio social e a formação intrapsíquica do sujeito são fatores relevantes no desenvolvimento do comportamento violento.

Palavras-chave: Comportamento violento; Formação da personalidade; Desenvolvimento humano.

1 INTRODUÇÃO

No presente artigo, serão apresentadas variáveis que influenciam a formação da personalidade e o comportamento violento, por meio da teoria sociológica da construção da realidade e da formação do eu de Berger e Luckman (2000) e da teoria psicossexual da formação da personalidade de Freud (1905). Após análise dos processos de socialização e tipificações de comportamento e dos impulsos agressivos e sexuais e seus destinos dispostos nessas teorias, será apresentado um argumento sobre o comportamento violento, analisando-se as influências do processo de formação da personalidade no desenvolvimento do comportamento violento.

Considerou-se que a promoção de estudos que busquem a relação entre a formação da personalidade e o desenvolvimento do comportamento violento contribuirão para futuros trabalhos preventivos que promovam saúde a partir de um processo socioeducativo de prevenção do comportamento social violento.

De acordo com o Mapa da Violência no Rio de Janeiro, divulgado pelo Instituto Sangari (2011), a taxa de homicídios no Estado do Rio de Janeiro, de 1980 a 2010, manteve-se em torno de 26,1%, com um aumento de percentual até 65,9% na década de 90. Observa-se que o número de homicídios diminuiu significativamente do final do século XX para o início do século XXI, porém há outros tipos de violência que se mantêm em nossa sociedade e que por muitas vezes são desqualificados como tal, como a violência social, racial, de gênero, de poder, abuso sexual, ambiental e outras. Sendo assim, o presente estudo torna-se relevante para um futuro trabalho preventivo no que tange ao controle do comportamento violento.

Até o final do século passado, as preocupações de estudiosos e profissionais de saúde estavam focadas nas vítimas, porém nesse momento as pesquisas têm buscado compreender o perfil do agressor para que propostas preventivas possam ser implementadas no contexto da violência e saúde.

Ao dirigir o olhar para o comportamento violento, notou-se que analisar o processo de formação da personalidade humana, levantando questões sobre que fatores intrapsíquicos e sociais interferem na produção do comportamento violento, seria um caminho para o desenvolvimento de teses explicativas fundamentadas na construção do sujeito.

2 A FORMAÇÃO DA PERSONALIDADE

Há um número significativo de teorias que explicam o processo de formação da personalidade. Para desenvolvimento desse trabalho, será apresentada inicialmente a teoria social da construção da realidade de Luckman e Berger e, posteriormente, a teoria do desenvolvimento psicossexual da personalidade de Freud.

2.1 Leitura sociológica

A análise dos fatores hereditários e ambientais conduz à conclusão de que a hereditariedade não atua ou influencia isoladamente o processo de desenvolvimento das características individuais. Há uma contínua interação entre hereditariedade e meio. Sem a hereditariedade não surgiriam as características individuais e do próprio indivíduo. A hereditariedade é um ingrediente básico, mas sem o meio este fator não se desenvolve.

De acordo com a teoria da Construção Social da Realidade, Luckman e Berger (2000) observaram que o ser humano é um animal que nasce biologicamente imaturo, pois o seu desenvolvimento ontogenético “desde o nascimento até a maturação para reprodução” é o mais longo de todos os mamíferos. Dessa forma, o organismo humano ainda está em crescimento quando se encontra já em relação com seu meio ambiente, o que faz pensar na influência do meio na formação do sujeito. Além do meio natural, o meio ambiente é composto por outros seres vivos, sobretudo humanos, inseridos num mesmo contexto sociocultural, e o contato com eles faz com que o indivíduo se forme em um ambiente com uma ordem social e cultural específica.

O fato de o desenvolvimento humano acontecer juntamente às determinações socioculturais ajuda a compreender porque há tantas variações no tornar-se humano. A documentação etnológica referente à sexualidade ilustra tais variações, visto que as pessoas relacionam-se de acordo com os costumes sexuais próprios de cada cultura. Embora os impulsos sexuais sejam iguais, a escolha do objeto para relacionar-se, os ritmos temporais das relações e as fantasias sexuais estão de acordo com o meio em que o indivíduo está incluído. Nota-se, assim, que o ser humano tem uma natureza flexível e suscetível às influências sociais. Seus impulsos, inicialmente, são desprovidos de especialização e direção. A socialização terá significativa influência na direção e especialização dos impulsos do ser humano, levando a concluir que o homem é, em parte, produto de experiências socioculturais.

Luckman e Berger (2000) ressaltam que, ao passar por um processo de socialização, o ser humano inicia a formação do eu. Embora a origem do eu esteja no nascimento biológico, o eu, enquanto uma identidade reconhecida, é formado por processos sociais de uma determinada cultura e, também, por aspectos psicológicos que complementam esta configuração. Assim, não se deve compreender um ser sem conhecer sua biografia e o contexto social em que foi formado (LUCKMAN; BERGER, 2000).

Para os autores, a socialização inicia-se com a criação de hábitos, inerentes à cultura, que dirigem os impulsos do homem biológico. Formam-se, assim, pessoas com condutas diferentes, características das culturas a que pertencem. Ao haver o encontro de dois indivíduos oriundos de diferentes culturas, observa-se que as condutas habituais, desempenhadas por um, levam o outro a observá-las e imitá-las. Desta forma, há uma tipificação recíproca de conduta, pois cada indivíduo tem seu comportamento específico, que serve de modelo para o outro, além de tornar-se conhecido por este. Inicia-se a institucionalização, existindo assim uma rotina habitual e certa, em que cada um é capaz de predizer as ações do outro.

As atitudes pessoais não são mais fontes de observação e atenção, elas passam a ser naturais e, ao nível de rotina, criam espaço para inovações, construindo, assim, o mundo social, no qual as pessoas interagem e atuam separadamente, uma interação que promove reciprocidade. Supondo-se a entrada de uma terceira pessoa nessa interação, ela receberá a comunicação original. Os hábitos e tipificações dos dois primeiros passam a ser instituições históricas, pois já são existentes; são experimentados como realidades próprias e são recebidos como algo exterior e coercitivo, sendo assim qualificados como realidade objetiva. O mundo objetivo é cristalizado no momento da transmissão e não pode mais ser modificado com facilidade pelos membros do grupo institucional. Ao tomar como exemplo a instituição familiar, observa-se que os pais interagem construindo uma realidade, configurando um mundo, que os filhos, ao nascerem, recebem pronto. Para os filhos, este é o mundo, e não um mundo entre outros, e, como não participaram da formação dele, é uma realidade objetiva, tal como a natureza. Apenas desta maneira, como mundo objetivo, é transmitido para outras gerações.

O mundo institucional transmitido pelos pais tem o caráter de realidade histórica e objetiva, porque já existia antes de o indivíduo nascer e continuará existindo.

As tipificações de condutas são construídas no curso de uma história e esta, por sua vez, é constituída com tipificações. Tem-se, assim, uma interação da tipificação de condutas com o processo de institucionalização. Para que se compreenda a instituição, é necessário compreender a construção de sua história. A conduta do homem é produto da instituição em que ele vive e, ao mesmo tempo, esta controla o seu comportamento por meio do estabelecimento de padrões de conduta.

Luckman e Berger (2000) concluem que a biografia do indivíduo é um episódio vivido dentro da história objetiva da sociedade. O sujeito está incluído nas instituições que existem e que funcionam como realidade exterior, tendo poder coercitivo sobre ele por meio do controle social.

Para que o mundo institucional seja reconhecido, ele tem de ser explicado e justificado, e isto é feito por meio da linguagem, que leva o indivíduo ao conhecimento das normas institucionais. Pelo conhecimento teórico das instituições, ele consegue explicar seu funcionamento, porém, é imprescindível que haja o conhecimento pré-teórico, ou seja, conjunto de tudo aquilo que todos sabem: princípios morais, crenças, mitos, provérbios, valores etc.

Nesse nível, as regras são pré-estabelecidas e conhecidas, como uma receita, fornecendo condutas aceitáveis institucionalmente. Como o conhecimento pré-teórico é um corpo de verdades válidas sobre a realidade, o que nele não se enquadrar é considerado como desvio da ordem institucional, tomando caráter de afastamento da realidade. Este desvio deve ser encarado como transtorno mental, depravação moral ou ignorância.

A realidade social transmitida pelos outros é apreendida como realidade objetiva durante a socialização. Posteriormente, o indivíduo interiorizará este conhecimento como verdade, ou seja, o subjetivará. A interiorização terá o poder de configurar um tipo X de pessoa num grupo social com identidade e biografia específicas. Tais informações são sedimentadas e retidas na consciência do sujeito e são suscetíveis de serem lembradas, devendo, assim, o indivíduo dar sentido à sua biografia.

Criando um contraponto às teorias sociológicas, temos a teoria psicanalítica, em que o desenvolvimento fisiológico tem fundamental importância no desenvolvimento psicológico de um indivíduo.

2.2 Leitura psicossexual

Freud tinha como base da sua teoria que nada existe ao acaso, há uma causa para todo tipo de pensamento, ideia similar à da ação e da reação. Todo pensamento é fruto de uma ação anterior, nenhum pensamento surge sem haver um processo motivacional. Tanto o consciente quanto o inconsciente levam à elaboração e desenvolvimento de um determinado processo mental e comportamento (FADIMAN; FRAGER, 1980).

Para Freud (1980a), todos os pensamentos, emoções, ações, ideias têm uma causa, nada acontece ao acaso e de modo indeterminado. Os impulsos insatisfeitos e os provenientes do inconsciente causam a maioria dos determinados eventos psicológicos.
A personalidade humana é dividida em três grandes superestruturas, que compreendem os seguintes complexos psicológicos: Ego, Id e Superego. O Ego é a parte da personalidade que toma as decisões a respeito de quais impulsos do Id deverão ser satisfeitos e de que modo. O Id é a parte inicial da personalidade, é a partir dela que o Ego e o Superego se desenvolvem, ele é responsável pela concretização dos impulsos biológicos mais básicos inerentes à pessoa humana. Por outro lado, o Superego é a parte cognitiva da personalidade que está encarregada de julgar e distinguir o que é certo e o que está errado; de uma maneira geral, ele é a reprodução dos valores e costumes internalizados pelo indivíduo (FREUD, 1980b).

Freud (1980a), em Três Ensaios sobre a Sexualidade, descreve os estágios de desenvolvimento que ocorrem durante os primeiros cinco anos de vida humana. Os diferentes estágios fisiológicos do desenvolvimento influem na dinâmica do desenvolvimento da personalidade. Assim, ele desenvolve uma teoria fundamentada no desenvolvimento psicossexual. Essas fases são determinadas pelo fato de que os impulsos provenientes do Id, os quais se encontram em processo de busca do prazer sexual, concentram-se em determinadas áreas do corpo humano e em contínua atividade.

A primeira fase do desenvolvimento psicossexual é a fase oral. Nela, os bebês obtêm prazer pela boca, situação principalmente observável durante a sensação de prazer deles durante os atos de amamentação e sucção; assim os bebês passam a levar outros objetos à boca, a fim de obter prazer. No segundo ano de vida, ocorre uma fase denominada fase anal, na qual a região anal é a fonte principal de prazer, principalmente no instante em que as crianças retêm e/ou expelem fezes, no entanto, nessa fase ocorre um conflito, em que os agentes são os pais e buscam impor aos filhos ou tutelados uma educação sanitária adequada.

Na próxima fase, denominada por Freud como fálica, as crianças sentem prazer na genitália. Elas observam as diferenças entre os sexos, ao ponto de dirigir seus impulsos sexuais ao genitor de sexo oposto, momento chamado de Fase Edipiana. Nessa fase, a criança dirige o seu desejo à figura parental do sexo oposto e deseja eliminar a figura parental do mesmo sexo. Se resolver a fase edipiana, a criança percebe as normas sociais, abre mão de seu desejo e vai em busca de um objeto no meio social. Se bem resolvido, observa-se a instalação do Superego.

Para pontuar o conflito vivido pela criança em relação a seus pais no que se refere à passagem de uma relação dual entre mãe e filho à estrutura triangular mãe, filho e pai, este último aparecendo para interditar a fusão inicial dos outros dois protagonistas, Freud formula o Complexo de Édipo. Nesse sentido, o Complexo de Édipo não deve ser pensado dissociado do complexo de castração, por sua vertente interdita, que faz com que haja um limite à relação dual, limite este dado pela Lei Simbólica, a lei do pai, que remete à lei de interdição do incesto. É a resolução desse complexo que permitirá a inserção do sujeito no mundo social, aceitando regras e reprimindo os impulsos sexuais e agressivos.

No Complexo de Édipo, a criança tem a atenção dirigida para o seu progenitor do sexo oposto e a instalação do superego se concretiza, pois as leis e normas de convívio social, em um desenvolvimento normal, são adquiridas nesse momento. Pode-se dar como exemplo o caso do menino: no desenvolvimento psicossexual, analisa-se a entrada do pai como terceiro na relação mãe-filho, o que faz com que o menino veja o pai como rival e dirija a ele sua agressividade e desejos inconscientes de morte. Porém, devido ao medo da castração, o menino passa a ter uma identificação com o pai, fazendo com que ocorra a resolução do Complexo de Édipo e o surgimento da possibilidade de estabelecer novas escolhas objetais, de acordo com a posição por ele tomada. Nesse momento, em que o menino aceita as regras de relacionamento social e suprime seus desejos pela mãe em troca da inserção no mundo social, pode-se dizer que há a estruturação do Superego, o que permite ao sujeito reprimir os impulsos agressivos e sexuais de forma desordenada na sociedade, dando-lhes diferentes direções, propiciando assim o convívio social de formas variadas (FREUD, 1980a).

Dessa forma, entende-se que na infância há uma parte de moções sexuais perversas (associais) que com a ajuda das normas e regras sociais se mantêm sob controle. Porém, há uma parte dessas moções que se expressam em atividades sexuais, excitações. As excitações da criança buscam certo prazer e satisfazem-se quando o alcançam. A intensidade e direção dessas satisfações propiciaram o desenvolvimento de diferentes perfis de personalidade.
Freud relata que há fatores hereditários e constitucionais que criam uma disposição originária para formação da personalidade. Porém define que outros fatores, que chama de elaboração ulterior, decidem a sua constituição. Quando as excitações infantis são mantidas sem controle e reforçadas no amadurecimento, o desfecho é o desenvolvimento de uma personalidade perversa. Quando no curso do desenvolvimento alguns desses componentes passam pelo recalcamento, as excitações continuam a ser produzidas, mas são impedidas por um obstáculo de atingir seu alvo e são dispersas por outros caminhos, tomando assim a personalidade o caminho da neurose. O terceiro fator que define a personalidade seria a sublimação, em que as excitações encontram escoamento em outros campos, aqui tem-se os religiosos, os artistas e outros.

Em síntese, aquilo que se chama caráter, para Freud, constroi-se a partir das excitações sexuais, fixações desde a infância, de sublimações e de outras construções destinadas a frear as moções perversas da infância.

O autor entende que os fatores constitucionais e vivenciais têm um relacionamento de cooperação na constituição do sujeito e não de exclusão. O fator constitucional aguarda experiências que o ponham em vigor, o vivencial apoia-se no constitucional.
Para Freud, qualquer trauma vivido em alguma dessas fases ocasionaria o surgimento de um posterior distúrbio de personalidade por um processo de fixação (FREUD, 1980a), que será relacionado a seguir com o processo de violência na atualidade, juntamente com análise de fatores sociais que possivelmente desencadeiam os comportamentos sociais agressivos.

3 O COMPORTAMENTO VIOLENTO

Bock (2003) relata que, para entender a personalidade violenta, precisa-se antes entender a diferença entre violência e agressividade. A agressividade é um impulso, natural do ser humano, que se volta para fora do próprio indivíduo (heteroagressão) ou para dentro dele (autoagressão), e sempre fará parte da constituição do indivíduo, fazendo parte do binômio amor/ódio, pulsão de vida/pulsão de morte. A agressividade manifesta-se de diferentes formas: pela ironia, por pensamentos e imaginações, pela omissão de ajuda; ou seja, a agressividade não se manifesta apenas pela destruição do outro, humilhação ou constrangimento, isto é, pela ação física ou verbal. Essa agressividade é comum ao ser humano e a educação e os mecanismos da lei buscam a subordinação e o seu controle.

A Psicanálise afirma que a cultura e a vida social visam produzir o controle desses impulsos inerentes ao ser humano. O controle acontece por meio de vínculos significativos que o indivíduo estabelece com os outros pelo processo de socialização, em que ele interioriza os controles.

Para esse indivíduo, o controle é interno e não precisa mais de controle externo para o que ele aprendeu a reprimir. Mas, em todo grupo social, há controle externo para controlar e/ou punir os comportamentos agressivos não valorizados pelo grupo.

A sociedade também tem outros mecanismos de controle, que são a ordem jurídica às leis. Se a sociedade cria mecanismos para controle da agressividade, precisa-se analisar porque a violência vem se constituindo como um comportamento tão presente nas relações humanas.
A violência é o uso desejado da agressividade com fins destrutivos. Ela é planejada, racional e se constitui em uma relação assimétrica, em que um indivíduo tem o poder sobre a outra que está subjugada. Quanto à consequência da violência, observa-se que há sempre um prejuízo físico, social ou psicológico para a vítima (BOCK, 2008).

Costa (2003, p. 76) entende violência como uma situação em que “o indivíduo foi submetido a uma coerção e a um desprazer, absolutamente, desnecessários ao crescimento, ao desenvolvimento e ao seu bem estar físico, psíquico e social”.

Ressalta-se que os impulsos agressivos não são os únicos determinantes do comportamento violento, há múltiplos fatores que determinam a violência, pode-se dizer assim que a violência é multideterminada por fatores históricos, econômicos, sociais, culturais, demográficos, psicológicos e outros. Esses fatores estão combinados e imbricados com outros fatores. Sendo assim, é necessário analisar as peculiaridades de cada caso em que o comportamento violento se manifesta (COSTA, 2003).

No século XXI, destaca-se como determinante da violência a desigualdade social na distribuição de renda e de direitos sociais (BOCK, 2008). Hobsbawn (apud BOCK 2008, p.331) relata que “a maior crueldade social é aquela que existe entre cidadãos de um mesmo país, que, por sua origem social, já têm seu destino traçado”. Pessoas de uma condição social mais baixa não podem consumir o mesmo que pessoas de outra condição. Os adolescentes, por características próprias dessa fase do desenvolvimento humano, são os que menos se conformam com isso, por verem passar por seus olhos o que é ícone de sua identidade e não poder consumir leva-os a buscar “muitas vezes de forma ilícita” aquilo que insistentemente a mídia mostra que é importante possuir para ter valor social.

Outro fator considerado relevante para determinar o comportamento violento é a deterioração dos valores éticos como a dignidade, a justiça e a solidariedade. Na atualidade, devido ao avanço da tecnologia, da mídia e da globalização, cada vez mais obtêm-se informações de que a organização social estimula, legitima e mantém diferentes modalidades de violência. Assim, observam-se na guerra, no combate ao inimigo político ou religioso, na pena de morte, na redução da idade penal como solução para redução do envolvimento do adolescente com o crime (BOCK, 2008).

O aumento do tráfico de drogas, de armas e de seres humanos, que afeta a vida de milhões de pessoas, mas também cria empregos e sustentação econômica para essas pessoas e suas famílias, deve ser considerado mais um fator que determina a violência (BOCK, 2008).

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Dessa forma, avança-se para além da teoria dos impulsos agressivos de Freud para compreensão da manifestação da agressividade por meio da violência e amplia-se o nosso olhar para a influência do social na formação do eu. A abordagem sociológica mostra que fatores sociais são significativos na formação do eu social, e comportamentos do mundo objetivo observados são subjetivados durante o período de socialização primária.
Destaca-se que a violência não é expressa apenas na criminalidade, mas também na guerra, no preconceito, na destruição do meio ambiente, na corrupção e na fome, dentre outras formas de expressão. Os impulsos agressivos dirigidos ao meio, heteroagressão, demonstram ser fatores relevantes para se compreender o comportamento violento do homem. Ao buscar a compreensão do comportamento violento por meio de uma aproximação da leitura sociológica com a leitura psicossexual, pode-se dizer que a violência é decorrente de uma formação psíquica em que há uma falha na estruturação do Superego, dificultando assim a repressão dos impulsos agressivos e sexuais oriundos do Id. Acresça-se o favorecimento social do comportamento violento, considerando o olhar da teoria sociológica, em que a violência é inerente à nossa cultura e é institucionalizada a partir de tipificações do comportamento.

Outro fator relevante, corroborando o pensamento de Bock (2008), é dizer que a violência está presente em lugares que, a princípio, seria para nos proteger delas, como a escola, a igreja, a família, abrigos, além de instituições que existem para erradicá-las, tais como polícia e prisões. A relação circular da sociedade com a violência é um fator que merece aprofundamento de estudos para que se pense em estratégias para buscar diminuição do processo de violência entre humanos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BERGER, P. L.; LUCKMANN, T. A construção social da realidade. 19. ed. Petrópolis: Vozes, 2000.
BOCK, A. M. Psicologias: uma introdução aos estudos da psicologia. 14. ed. São Paulo: Saraiva, 2008.
COSTA, J. F. Violência e psicanálise. São Paulo: Graal, 2003.
FADIMAN, J.; FRAGER, R. Teorias da personalidade. São Paulo: Habra, 1980.
FREUD, S. Três ensaios sobre a sexualidade. Rio de Janeiro: Imago, 1980a. (Coleção de Obras Completas de Sigmund Freud, v. 17).
______. O ego e o id. Rio de Janeiro: Imago, 1980b. (Coleção de Obras Completas de Sigmund Freud, v. 19).