Uma Análise do Conhecimento dos Moradores da Cidade do Rio de Janeiro a Respeito da Conferência Rio +20

Artigo publicado na Revista Conexões Psi, v. 1, n. 1, Janeiro/Junho de 2013

Eduardo Amazonas de Figueiredo
Mestre em Economia Empresarial pela Universidade Cândido Mendes (UCAM)
Professor no Centro Universitário Augusto Motta(UNISUAM) e Faculdades Integradas Hélio Alonso (FACHA)

Maria Angélica Gabriel
Mestre em Psicologia Social pela Universidade Gama Filho (UGF)
Professora e Coordenadora do Curso de Graduação em Psicologia do Centro Universitário Augusto Motta (UNISUAM)

Daniel Alves
Acadêmico de Psicologia no Centro Universitário Augusto Motta (UNISUAM)
Acadêmico-pesquisador (UFRJ)

Ana Carolina Areias
Acadêmica de Psicologia no Centro Universitário Augusto Motta (UNISUAM)

Thaís Gabriel Pincigher Silva
Acadêmica de Psicologia no Centro Universitário Augusto Motta (UNISUAM)
Acadêmica de Saúde Coletiva na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

RESUMO

O presente estudo teve por objetivo analisar o conhecimento dos moradores da cidade do Rio de Janeiro em relação à Conferência Rio +20. Foram entrevistadas 42 pessoas, de ambos os sexos, residentes no Município do Rio de Janeiro, de diferentes níveis de escolaridade. Para levantamento dos dados, utilizou-se a entrevista estruturada com perguntas sobre o significado da Conferência, sobre o período de realização, sobre os temas que seriam abordados e o histórico de conferências que deram origem à mesma. Na análise dos resultados, observou-se que a maior parte das pessoas estudadas já havia ouvido falar na Rio +20, mas não sabia do que se tratava. Os resultados da pesquisa confirmam os estudos realizados pelo UEBT em 2012, em que se observou que a maior parte da população mundial e do Brasil não sabia do que se tratava a Rio +20. Concluiu- se que a falta de informação e de educação a respeito de desenvolvimento sustentável são fatores que precisam ser considerados, para maior participação da sociedade civil nas conferências mundiais e no desenvolvimento da sustentabilidade econômica, social e ambiental.

Palavras-chave: Sustentabilidade; Conferência Rio +20; Meio ambiente.

AN ANALYSIS OF KNOWLEDGE THAT RESIDENTS OF RIO DE JANEIRO HAS ABOUT RIO +20

Abstract: The present study aimed to analyze the knowledge that residents of the city of Rio de Janeiro in relation to the Rio
+20 Conference. We interviewed 42 people, of both sexes, living in the city of Rio de Janeiro, with different levels of schooling. For data collection, we used a structured interview with questions about the meaning of the Conference, the period of realization, the issues to be addressed and the historic conference that gave rise to it. In analyzing the results, it was observed that most of the people studied had heard at Rio +20, but did not know what it was. The survey results confirm studies by UEBT in 2012 which noted that most of the world’s population and Brazil’s population did not know what was Rio +20. It was concluded that the lack of information and education about sustainable development are factors that need to be considered for greater civil society participation in global conferences and in the development of economic, social and environmental.

Keywords: Sustainability. Rio +20. Environment.

UN ANÁLISIS DE LOS CONOCIMIENTOS QUE LOS RESIDENTES DE RÍO DE JANEIRO TIENE SOBRE RIO +20

Resumen: El presente estudio tuvo como objetivo analizar el conocimiento que los residentes de la ciudad de Río de Janeiro tienen con respecto a la Conferencia Río +20. Hemos entrevistado a 42 personas, de ambos sexos, que viven en la ciudad de Río de Janeiro, com diferentes niveles de escolaridad. Para la recolección de los datos, se utilizó una entrevista estructurada con preguntas sobre el significado de la Conferencia, el período de realización, los temas que se abordarán y la histórica que le dio origen. Al analizar los resultados, se observó que la mayoría de las personas estudiadas habían escuchado en Rio +20, pero no sabía lo que era. Los resultados del estudio confirman los estudios realizados por UEBT en 2012, que señaló que la mayoría de la población mundial y de lo Brasil no sabía lo que iba a Río +20. Se concluyó que la falta de información y educación sobre el desarrollo sostenible son factores que deben tenerse en cuenta para una mayor participación de la sociedad civil en las conferencias mundiales y el desarrollo de los derechos económicos, sociales e medioambientales.

Palabras clave: Sostenibilidad. Rio +20. Ambiente.

1 INTRODUÇÃO

O objetivo desse estudo foi analisar o conhecimento que a população do município do Rio de Janeiro tem a respeito do significado e da intencionalidade da Conferência Rio +20. Tal interesse surgiu a partir do conhecimento de discussões promovidas por outras Cúpulas, que não a Cúpula do Governo, que apresentaram visões contrárias à busca de soluções dos problemas de depredação do ambiente e sustentabilidade apresentadas pela Coordenação da Conferência das Nações Unidas. Tais afirmações despertaram inquietações que suscitaram questões, tais como: qual a intencionalidade da Rio +20? A população tem conhecimento do que se trata? Observa- se interesse de participação da população nas discussões propostas pela cúpula? Observa-se uma preocupação da população com a preservação do ambiente e com o desenvolvimento sustentável?

Um estudo realizado em 2012, pela Union for Ethical Biotrade (UEBT), com objetivo de mapear o nível de conscientização ambiental das pessoas em diferentes lugares do mundo (que incluía conhecer ou não a Rio +20) mostrou que apenas 19% das pessoas entrevistadas já haviam ouvido falar da Rio +20. Desse percentual, apenas 6% conheciam certeiramente do que se tratava a Conferência. A pesquisa foi realizada com oito mil pessoas, de classes A, B ou C, em oito países (quatro europeus, EUA, Brasil, Peru e Índia). No Brasil, 54% das pessoas já tinham ouvido falar da Rio +20 e 24% conseguiram definir com clareza o evento (UNION FOR ETHICAL BIOTRADE, 2012). Em estudo realizado no Brasil pelo Instituto Vitae Civilis, em 2011, detectou-se que 11% de 806 brasileiros não estavam familiarizados com a Rio +20 (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, 2012).

Considerando os dados e as questões relatadas, buscou-se levantar a opinião de uma parcela da população do município do Rio de Janeiro a respeito da Conferência. Utilizou-se a entrevista estruturada com perguntas fechadas e abertas, e foram entrevistados 42 moradores do Município Rio de Janeiro, homens e mulheres. A entrevista consistia em perguntas sobre o que sabiam sobre a Rio +20, a Eco-92, o local e dias em que aconteceria a conferência, se conheciam a Carta da Terra e se conseguiam definir Sustentabilidade.

2 A CONFERÊNCIA E O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

A Conferência Rio +20 é a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável que aconteceu no Brasil de 20 a 22 de junho de 2012, marcando o 20º aniversário da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (UNCED), que ocorreu no Rio de Janeiro, em 1992, popularmente conhecida como Rio-92 ou Eco-92. A Conferência marca também o 10º aniversário da Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável (WSSD, na sua sigla em inglês), que aconteceu em Johanesburgo em 2002 e que deu origem à Carta da Terra (GRUPO INTERDISCIPLINAR DE PESQUISA SOBRE MUDANÇAS CLIMÁTICAS GLOBAIS, 2012).

A Conferência contou com a presença de Chefes de Estado e de Governo com a proposta de produção de um documento político focado na preservação do ambiente e sustentabilidade. O objetivo da Conferência foi assegurar um comprometimento político renovado para o desenvolvimento sustentável, avaliar o progresso feito até o momento e as lacunas que ainda existem na implementação dos resultados dos principais encontros sobre desenvolvimento sustentável, além de abordar os novos desafios emergentes. O evento contribuiu para definir a agenda do desenvolvimento sustentável para as próximas décadas (GRUPO INTERDISCIPLINAR DE PESQUISA SOBRE MUDANÇAS CLIMÁTICAS GLOBAIS, 2012).

A Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável (Rio +20) teve em foco dois temas centrais:

a) uma economia verde no contexto do desenvolvimento sustentável e da erradicação da pobreza; e

b) o quadro institucional para o desenvolvimento sustentável.

De acordo com a ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, a Economia Verde no contexto do desenvolvimento sustentável e erradicação da pobreza é “uma economia que resulta em melhoria do bem-estar da humanidade e igualdade social, ao mesmo tempo em que reduz significativamente os riscos ambientais e a escassez ecológica”. A economia verde é uma economia com baixa emissão de carbono, eficiente em uso de recursos naturais e considerada socialmente inclusiva. Nesse tipo de economia, investimentos públicos e privados devem impulsionar o crescimento de renda e emprego, bem como reduzir emissões de gases que poluem o ambiente, aumentar a eficiência energética, o uso de recursos que previnam as perdas de biodiversidade e conservem o ecossistema. Para isso, precisa-se de gastos públicos específicos, reformas políticas e mudanças na regulamentação de preservação do ambiente.

O caminho do desenvolvimento deve manter, aprimorar e, quando possível, reconstruir capital natural como um bem econômico crítico e como uma fonte de benefícios públicos, principalmente para a população carente cujo sustento e segurança dependem da natureza. (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, 2011, p. 2).

Ainda no processo preparatório da Eco-92, houve uma série de propostas para uma reforma institucional com a finalidade de enfrentar os desafios do desenvolvimento sustentável. A United Naions Conference on Environment and Development (UNCED) adotou de uma série de acordos cruciais, incluindo a Declaração do Rio, a Agenda 21, e o marco “Convenções Rio”. Foram, ainda, criadas novas instituições internacionais, como a Comissão de Desenvolvimento Sustentável, encarregada do acompanhamento da Conferência do Rio (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, 2011).

Por quadro institucional para o desenvolvimento sustentável se entende o envolvimento e o desenvolvimento de instituições em nível internacional, nacional e regional para desenvolver os três pilares da sustentabilidade: social, econômico e meio ambiente. Desde a primeira conferência, Eco-92, criaram-se instituições e acordos para promoção do desenvolvimento sustentável. Dessa forma, o quadro institucional vem se ampliando a cada encontro da cúpula. Em 2002, na Conferência de Johanesburgo, o conceito de três pilares se reforçou e foi incorporado ao Plano Johanesburgo de Execução (JPOI, na sua sigla em inglês). A necessidade de reforçar o Arcabouço Institucional para o Desenvolvimento Sustentável (IFSD, na sua sigla em inglês) tornou-se imprescindível para o desenvolvimento sustentável (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, 2011).

3 METOLODOGIA DO ESTUDO

O estudo foi realizado com 42 pessoas moradoras do Rio de Janeiro, convidadas aleatoriamente para participar. Buscou-se selecionar pessoas de diferentes níveis sociocultural e econômico, de idade entre 15 e 50 anos, de nível escolar de ensino fundamental, médio e superior, residentes e domiciliados em diferentes bairros do município do Rio de Janeiro. Para coleta de dados, foi utilizada a entrevista estruturada com oito itens. De acordo com Delzin e Lincoln (1994 apud NUNES, 2004), a entrevista é o instrumento metodológico favorito dos pesquisadores que utilizam a abordagem qualitativa de coleta e análise de dados. A entrevista estruturada é composta de perguntas formuladas antecipadamente e o entrevistador dirige a entrevista, cabendo ao entrevistado responder o que lhe foi perguntado. Dessa forma, foi realizado um plano com questões previamente propostas (BLEGER, 2011). A entrevista foi realizada pessoalmente e transcrita na íntegra. Os dados foram analisados a parir de categorização das respostas e levantamento do número de vezes que cada resposta se repetia. A parir dessa análise, foi produzido um texto síntese, descritivo, relatando o conjunto de respostas dadas pelos entrevistados.

4 RESULTADOS DO ESTUDO

Das 42 pessoas que participaram desse estudo, 76% eram do sexo feminino e 24% masculino. Quanto ao nível de escolaridade, 16,67% tinham ensino fundamental, 57,14% ensino médio e 26,19% ensino superior. Os participantes eram residentes e domiciliados no Município do Rio de Janeiro. Dos sujeitos entrevistados, 9,53% estavam na faixa etária de 15 a 17 anos, 30,95% de 18 a 25 anos, 26,19% de 26 a 35 anos, 11,9% de 36 a 45 anos e 21,43% acima de 45 anos. Quanto ao nível socioeconômico, 23,81% da população estudada tinha renda familiar abaixo de R$ 1.000,00, 30,94% entre R$ 1.000,00 e R$ 3.000,00, 19,05% de R$ 3001,00 a R$ 5.000,00 e 26,20% acima de R$ 5.000,00.

Em relação ao conhecimento da Conferência das Nações Unidas Rio +20, 78,57% já ouviram falar e 21,43% nunca ouviram. Quando se tratou de definir o que era a Conferência, 30,95% dos que haviam ouvido falar definem e 69,05% não conseguiram definir.

Quanto aos dias que aconteceria a Conferência, 21,43% relataram que aconteceria em junho, mas não sabiam precisar os dias, 14,29% informaram corretamente os dias e 64,28% não sabiam.

Em relação ao local onde seria realizada, 26,20% disseram Rio de Janeiro, mas não sabiam precisar em que local, 11,90% acertaram e 65,90% não sabiam.

Ao analisar o conhecimento de outras Conferências e Documentos que compõem a história da Conferência das Nações Unidas, observou-se que em relação à Eco92, 62% ouviram falar e 38% nunca haviam ouvido falar. Dos que já haviam ouvido falar, 19% definiram certeiramente e 81% não conseguiram. Quando à Carta da Terra, 100% dos entrevistados relatam nunca terem ouvido falar.

No que diz respeito a conceituar sustentabilidade, observou-se que 69% não conseguiram definir.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

De acordo com os resultados obtidos, observou-se que a maior parte das pessoas do grupo estudado não conhecia a Conferência e nem sabia onde e quando aconteceria. Os entrevistados que ouviram falar na Conferência não conseguiram dizer do que se tratava. O mais próximo que se chegou foi a associação a um evento sobre meio ambiente.

O histórico da Conferência das Nações Unidas e o que é desenvolvimento sustentável estão distante da maior parte das pessoas estudadas. Tais dados confirmam a pesquisa realizada pela UEBT, porém apresentando um percentual maior de falta de informação a respeito do que é a Rio +20 e de suas intenções. Outro dado relevante, é que apesar de ter sido decretado feriado nos dias em que ocorreu a Rio +20, a maior parte dos entrevistados não conseguiu dizer em que dias aconteceria a Conferência e apenas 11,9% das pessoas entrevistadas apresentaram conhecimento preciso do local. Quanto ao conhecimento do significado de sustentabilidade e da Carta da Terra, o número diminui para próximo de zero e zero, respectivamente, o que nos leva a identificar o pouco conhecimento que as pessoas apresentam sobre o objeto da Conferência.

Nesse sentido, considera-se que houve pouco conhecimento dos participantes em relação à Rio +20, bem como ficou notória a falta de conhecimento sobre o conceito de sustentabilidade. Tais resultados propõem um futuro estudo a respeito da forma como a população vem sendo envolvida em questões de sustentabilidade, desenvolvimento social e economia sustentável, pois o desconhecimento apresentado mostra uma alienação da população quando se trata de eventos em que a participação da sociedade é fundamental para efetivar programas e acordos regionais, nacionais e internacionais. Considerou-se que os objetivos traçados para proteção do meio ambiente, erradicação da pobreza e aproveitamento dos recursos naturais para o desenvolvimento necessitam de maior promoção de informação, educação e conscientização da sociedade para que seja alcançado. A realização da Conferência Rio +20 na Cidade do Rio de Janeiro e os esforços do governo para participação ativa de grupos sociais no evento não foi suficiente para conscientizar a população a respeito da Conferência no Rio de Janeiro, nem sequer do conhecimento a respeito do desenvolvimento sustentável. Sugere-se o investimento em trabalhos educativos para que a informação seja interiorizada. Considera- se que a divulgação com efetividade é uma forma de disseminar o conhecimento a respeito das preocupações regionais, nacionais e internacionais e incentivar o comportamento para o desenvolvimento sustentável, para que dessa forma alcancemos uma mudança de atitude da população e das empresas em relação aos seus hábitos predatórios e estimulemos um consumo consciente com aproveitamento de recursos naturais.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BLEGER, J. Temas de Psicologia: entrevistas e grupos. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2011.
NUNES, M. L. Entrevista como instrumento de pesquisa. In: MACEDO, M.M.K.; CARRASCO, L. K. (Con)textos de entrevista: olhares diversos sobre a interação humana. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2004.
ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Caminhos para o desenvolvimento sustentável e a erradicação da pobreza: síntese para tomadores de decisão. Brasília, DF: PNUMA, 2011. Disponível em: <htp://www.pnuma.org.br/admin/publicacoes/ texto/1101-GREENECONOMY-synthesis_PT_online.pdf>. Acesso em: 20 abr. 2012.
UNION FOR ETHICAL BIOTRADE. Barômetro de Biodiversidade em 2012. São Paulo: UEBT, 2012. Disponível em: <htp://ethicalbiotrade.org/news/wp-content/uploads/UEBT.BARO2O12.PORTUGUESE_Print.pdf>. Acesso em: 25 maio 2012.
GRUPO INTERDISCIPLINAR DE PESQUISA SOBRE MUDANÇAS CLIMÁTICAS GLOBAIS. Rio +20 Conferência das Nações Unidas Desenvolvimento Sustentável. Campinas: UNICAMP, 2012. Disponível em: <htp://www.cpa.unicamp.br/alcscens/news_details.php?id=44> Acesso em: 19 maio 2012. Matéria publicada no blog no dia 17 de fevereiro de 2012.