Avaliação do Estresse em Trabalhadores de um Centro Universitário da Cidade do Rio de Janeiro

 

Artigo publicado na Revista Conexões Psi, v. 1, n. 1, 2013

 

Monique Ribeiro de Assis
Doutorado em Educação Física pela Universidade Gama Filho (UGF)
Professora do Curso de Graduação e Pós-Graduação da Universidade Gama Filho (UGF)

Rachel Shimba Carneiro
Doutora em Psicologia Social pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
Professora do Curso de Mestrado em Psicologia da Universidade Católica de Petrópolis

Maria Angélica Oliveira Gabriel
Mestre em Psicologia pela Universidade Gama Filho
Professora Adjunta e Coordenadora do Curso de Graduação em Psicologia no Centro Universitário Augusto Motta (UNISUAM)

 

RESUMO

Toda complexidade que envolve o trabalho o torna foco de várias contradições e ambivalências. Se de um lado ele pode ser uma fonte de prazer e satisfação, por outro, pode ser considerado locus de sofrimento e estresse. O objetivo da presente pesquisa foi investigar a prevalência e sintomatologia de estresse em trabalhadores de uma universidade particular da cidade do Rio de Janeiro. A amostra constou de 106 trabalhadores de um centro universitário do município do Rio de Janeiro e foi utilizado Inventário de Sintomas de Stress para Adultos de Lipp (ISSL). Os resultados mostraram que 41,5% dos indivíduos encontram-se estressados e 84,1% destes na fase de resistência com uma parcela (11,4%) em uma fase de quase exaustão.

Palavras-chave: Estresse; Trabalho; Centro Universitário.

STRESS ASSESSMENT IN WORKERS FROM A UNIVERSITY CENTER IN THE CITY OF RIO DE JANEIRO

Abstract: Working, for its complexity, can be focus of several contradictions and ambivalences. On one hand it can be a source of pleasure and satisfaction, on the other, it can be considered a locus of suffering and stress. The goal of this research was to investigate the prevalence and symptoms of stress in workers of a private university in the city of Rio de Janeiro. The sample consisted of 106 employees from the university and for data collection it was used an Inventory of Stress Symptoms by Lipp (ISSL). The results showed that 41.5% of the individuals are stressed and 84.1% in the resistance phase and 11.4% in a phase of exhaustion.

Keywords: Stress. Work; University Center.

EVALUACIÓN DEL ESTRÉS EN TRABAJADORES DE UN CENTRO UNIVERSITARIO DE LA CIUDAD DE RIO DE JANEIRO

Resumen: Trabajo, por su complejidad, puede ser objeto de varias contradicciones y ambivalencias. Por un lado, puede ser una fuente de placer y satisfacción, por otro, se puede considerar un lugar de sufrimiento y estrés. El objetivo de este estudio fue investigar la prevalencia y los síntomas de estrés en los trabajadores de una universidad privada en la ciudad de Rio de Janeiro. La muestra estuvo conformada por 106 empleados de la universidad y para la recopilación de datos se utilizó el Inventario de Síntomas de Estrés de Lipp (ISSL). Los resultados mostraron que el 41,5% de los individuos están estresados, 84,1% en la fase de resistencia y 11,4% en una fase de agotamiento.

Palabras clave: Estrés; Trabajo; Centro Universitario.

1 INTRODUÇÃO

Claus Offe (1989) considera que a sociedade tem sido edificada como uma “sociedade do trabalho”, uma vez que o trabalho ocupa um aspecto central na vida humana. Para o sociólogo, a classe trabalhadora e seus hábitos, a organização e processo de trabalho e o modo de produção dele derivado representam os pilares de organização de toda estrutura social. Marx (1996), nesta mesma linha, acredita que qualquer análise sobre a sociedade e suas contradições deve ser conduzida à luz da compreensão do trabalho no sistema capitalista e tudo que o cerca. Para o autor, houve um processo de transformação da humanidade em uma grande “força de trabalho”.

Toda complexidade que envolve o trabalho o torna foco de várias contradições e ambivalências. Se de um lado ele pode ser uma fonte de prazer e satisfação, propiciando uma auto-realização e o estabelecimento de significativas relações sociais e afetivas; por outro, pode ser considerado locus de sofrimento e estresse (MURTA; TRÓCCOLI, 2004; MENDES; MARRONE, 2002).

Com referência, por exemplo, aos professores, Soratto e Oliver-Heckler (1999) relatam que a maioria desses trabalhadores, apesar das condições de trabalho frequentemente desfavoráveis, estão satisfeitos, gostam do que fazem e sentem-se realizados com o que produzem. Por outro lado, o estudo de Gasparini, Barreto e Assunção (2005) revelou que os professores têm mais riscos de sofrimentos psíquicos de diferenciados matizes quando comparados a outros grupos.

Por certo, satisfação no trabalho é um fenômeno de difícil definição, por se tratar de um estado subjetivo que varia de acordo com o indivíduo ou grupo social (MARTINEZ; PARAGUAY; LATORRE, 2004). Portanto, cada investigação referente ao trabalho de um determinado setor reveste-se de características próprias e requer um estudo aprofundado da gênese do estresse ocupacional considerando o processo e a organização do trabalho e o e repertório de possibilidades de enfrentamento dos trabalhadores. Neste sentido, qualquer programa de manejo do estresse ocupacional direciona suas ações tanto para a organização como um todo quanto para os indivíduos.

Lipp e Tanganelli (2002) definem o estresse como uma reação complexa composta por mudanças psicofisiológicas que ocorrem quando o indivíduo se vê diante de situações que ultrapassam sua capacidade de enfrentamento. Situações estas que, em se tratando de variáveis relativas ao ambiente profissional, derivam dos estímulos do ambiente de trabalho e exigem do empregado respostas adaptativas; estes estímulos são comumente chamados de estressores ocupacionais. Segundo as autoras, o estresse compreende três fases: alerta, resistência e exaustão, e os sintomas, tanto somáticos como psicológicos vão se agravando à medida que o estado de estresse se agrava. Dentre os sintomas é possível citar úlceras, gastrites, hipertensão, colites e, face a uma diminuição da imunidade, câncer e outras doenças crônico-degenerativas. Como complicações psicológicas, as autoras salientam o aumento de depressões, diminuição da memória, tempo de resposta e concentração, além de mudanças de traços da personalidade e diminuição da autoestima.

Partindo para uma abordagem fisiológica do impacto dos agentes estressores no nosso organismo, Tanno e Marcondes (2002) pontuam que quando o corpo humano reconhece um determinado estímulo como agressor imediatamente lança mão de mecanismos autonômicos (sistema nervoso simpático – SNS) e endócrinos (eixo hipotálamo-hipófise- adrenal – HHA) com vistas a recuperar a homeostasia. O responsável pelo comando de toda esta operação é o sistema límbico, que frente a um agente estressor, ativa o hipotálamo que integra a atividade simpática (SNC) e hormonal (HHA) tendo como produto final a secreção de glicocorticóides (cortisol e hidrocortisona) e das catecolaminas (adrenalina e noraadrenalina) considerados marcadores das respostas ao stress. A secreção destes marcadores está associada com mudanças comportamentais, neuroquímicas e neurodegenerativas. Segundo Alheira e Brasil (2005), altos níveis de cortisol são essenciais numa reação aguda ao estresse, entretanto, níveis cronicamente elevados podem ter efeitos negativos significativos na atividade do funcionamento neurológico.

2 OBJETIVO

Sendo assim, o objetivo da presente pesquisa é investigar a prevalência e sintomatologia de estresse em trabalhadores de uma universidade particular da cidade do Rio de Janeiro.

3 MÉTODO

O estudo seguiu o desenho metodológico descrito abaixo:

3.1 Tipo de estudo

O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa do tipo transversal, uma vez que se trata de uma investigação em que a relação entre a exposição (trabalho) e o agravo à saúde (estresse) será examinada em um determinado momento.

3.2 Amostra

A amostra constou de 106 trabalhadores de um centro universitário do município do Rio de Janeiro, A seleção dos participantes foi por sorteio a parir da listagem inicial contendo número de trabalhadores, sexo e setor da atividade profissional. Os trabalhadores foram convidados pelos pesquisadores a participar do estudo de modo voluntário, respeitando, assim, a Resolução 196/96. Foram excluídos todos os sujeitos que estavam afastados do trabalho. A pesquisa foi submetida ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) do Centro Universitário Augusto Mota sendo registrado sob o número 04093012.8.0000.5235 de 21/09/2012.

3.3 Coleta de dados

Para coleta de dados utilizou-se dos seguintes instrumentos e procedimentos.

3.3.1 Instrumento

Ao se traçar um desenho metodológico para atingir os objetivos da pesquisa, o instrumento selecionado foi o Inventário de Sintomas de Stress para Adultos de Lipp (ISSL) (LIPP, 2000), validado por Lipp e Guevara (1994) cujo objetivo é avaliar o nível de estresse, sua sintomatologia e sua predominância tanto no nível cognitivo quanto no nível somático. O teste é composto por três quadros que se referem às quatro fases do estresse. Os sintomas listados são típicos de cada fase.

3.3.2 Procedimentos

Em um primeiro momento, os informantes foram convidados a participar do estudo e esclarecidos a respeito dos objetivos da pesquisa, além de serem informados sobre o caráter voluntário da participação e o anonimato de suas respostas. Os participantes preencheram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido em observância à Resolução nº 196/96 do Conselho Nacional de Saúde. A pesquisa não apresentou risco, por solicitar dos participantes apenas respostas às perguntas apresentadas. Logo após, foi aplicado o questionário, perante os pesquisadores, porém sem nenhuma interferência destes no próprio local de trabalho.

4 RESULTADOS

Do total de pessoas que responderam ao instrumento (n= 106), 44 (41,5%) manifestaram sintomas de estresse, enquanto 62 (58,5%) não manifestaram (Figura 1).

Figura 1: Prevalência de sintomas de estresse entre os trabalhadores do centro universitário

fig3

Fonte: Os autores (2013)

A Tabela 1 apresenta os dados de prevalência de sintomas de estresse distribuídos por setor. A linha base (em negrito) configura o valor referente ao total de trabalhadores investigados. Os valores iniciais (anterior à linha base) encontram-se os setores cuja prevalência de estresse foi inferior à prevalência referente ao total. Por outro lado, os dados posteriores à linha base estão os setores que manifestaram prevalência superior ao valor central.

Tabela 1: Prevalência de sintomas de estresse distribuídos por setor

fig4

Fonte: Os autores (2013)

Do total de pessoas que manifestaram sintomas de estresse, a maioria encontra-se na fase de resistência e com predominância de estresse ísico (Figuras 2 e 3).

Figura 2: Distribuição percentual dos sintomáticos considerando as fases do estresse

fig5

Fonte: Os autores (2013)

Figura 3: Distribuição percentual dos sintomáticos considerando a predominância

fig6

Fonte: Os autores (2013)

5 DISCUSSÃO

Lipp e Tanganelli (2002) reforçam que os mecanismos de ação do estresse no funcionamento humano têm consequências negativas nos aspectos físicos e mentais contribuindo para o aparecimento de várias doenças. Em relação à ocupação profissional, várias profissões como bancários, policiais militares e professores já foram analisadas tendo como foco os níveis de stress dos profissionais.

O estresse relacionado à atividade profissional pode ser definido como um estado emocional desagradável no ambiente de trabalho incluindo sentimentos de frustração, desânimo e sensação de não realização profissional, muitas vezes causado por excesso de tarefas e responsabilidades com poucas possibilidades intelectuais, emocionais ou institucionais de resolução de conflitos e alcance de metas.

No presente estudo, os funcionários de um centro universitário na cidade do Rio de Janeiro foram avaliados quanto aos níveis de estresse. Verificou-se que 41,5% dos indivíduos (Figura 1) encontram-se estressados e 84,1% destes na fase de resistência (Figura 2) com uma parcela (11,4%) em uma fase de quase exaustão. Os sintomas mais apresentados foram mal estar generalizado, aparecimento de problemas dermatológicos, sensação de desgaste físico, cansaço constante, insônia, dores no corpo, angústia, hipersensibilidade emotiva e depressão.

A fase de resistência é a segunda fase do estresse e é também chamada de fase adaptativa. Tanno e Marcondes (2002) esclarecem que na primeira fase, ou fase de alerta, é caracterizada por um aumento da capacidade orgânica em responder ao estímulo estressor com ativação do sistema nervoso e endócrino. Na fase de resistência, o organismo continua se defendendo dos agentes agressores de forma mais crônica apresentando uma hiperatividade da glândula suprarenal, que para dar aporte energético para o organismo, intensifica a produção do cortisol e das catecolaminas. Estudos de Mello et al. (2013) revelam que a hipersecreção do cortisol foi vinculada a vários transtornos psiquiátricos e somáticos funcionais.

Sabe-se, porém, que a resistência do organismo não é ilimitada. A exposição intensa a agentes agressores ultrapassa as capacidades adaptativas do organismo.

Os resultados do presente estudo apontam para o início de uma fase de esgotamento de uma parcela significativa de trabalhadores do centro universitário com predominância de sintomas físicos. Todo este quadro pode comprometer o desempenho na execução do trabalho diário como também acometer os indivíduos de enfermidades que impossibilitariam a permanência na atividade profissional. Lipp e Tanganelli (2002) relatam como consequências da exposição prolongada a agentes estressores não só agravos à saúde física e psicológica mas também perda nas relações de sentido do trabalhador com o seu trabalho, gerando sentimentos de incompetência, baixa autoestima, desalento e angústia.

6 CONCLUSÃO

Os dados achados parecem preocupantes uma vez que os prejuízos físicos e psicológicos relacionados ao estresse excessivo podem comprometer a qualidade do trabalho em uma instituição de ensino. Faltas recorrentes, licenças médicas, além de perda de memória, avaliação e comprometimento das funções de julgamento e concentração podem levar a erros que comprometerão o cumprimento das tarefas.
Considerando os resultados do estudo, indaga-se que estratégias adotar a fim de minimizar os efeitos deletérios da exposição ao estresse. Tais estratégias envolvem esforços conjuntos da instituição e dos trabalhadores: Medidas centradas no autodesenvolvimento individual e manejo de técnicas de controle do estresse bem como medidas preventivas mais amplas que envolvem a participação da instituição como mudanças na estrutura organizacional, adequação das condições e ambiente de trabalho, aprimoramento dos programas treinamento e desenvolvimento, participação e autonomia no trabalho e incremento das relações interpessoais.

Ações pedagógicas que visem esclarecer e orientar os indivíduos quanto à complexidade do estresse e possíveis estratégias de controle e estudos científicos com o intuito de mapear possíveis focos de intervenção se fazem igualmente necessários.

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