Ressocialização de Mulheres Encarceradas: Intervenções com Grupos de Reflexão

Maria Angélica Gabriel
Mestre em Psicologia Social pela Universidade Gama Filho (UGF)
Professora de Psicologia do Centro Universitário Augusto Motta (UNISUAM)

Alex Sandre Neves
Acadêmico de Psicologia no Centro Universitário Augusto Motta (UNISUAM)

Adriana Alcântara
Acadêmica de Psicologia no Centro Universitário Augusto Motta (UNISUAM)

RESUMO

O presente artigo tem por objetivo apresentar de que forma as intervenções grupais, com referencial psicanalítico, contribuem para a ressocialização de mulheres encarceradas. Utilizamos como metodologia a Análise Documental dos Relatórios produzidos pela equipe de Psicologia, sendo selecionados dez deles para o trabalho. Assim como a Técnica de Intervenção Verbal, a qual viabilizou a instrumentalização para o acolhimento e segurança a fim de proporcionar a ressignificação das vidas das internas. Como fruto do trabalho realizado, obtivemos os seguintes resultados: a inserção de detentas no mercado de trabalho, uma vez que o grupo criou possibilidades para a reestruturação egóica.

Palavras-chave: Grupos de reflexão; Técnicas de intervenções.

1 INTRODUÇÃO

O presente estudo consiste na análise de relatos de experiência de uma equipe de Psicologia em Projeto Social desenvolvido no Instituto Penal Oscar Stevenson. No projeto denominado Transformando: ressignificando vidas nas prisões eram realizados grupos de reflexão com mulheres encarceradas no regime semiaberto do sistema penitenciário. Foram realizados, aproximadamente, duzentos encontros e mais de cinquenta presas participaram. Através de grupos reflexivos, buscou-se resgatar a cidadania e transformar em discurso as necessidades básicas que culminavam com o comportamento antissocial. No grupo foi criado um espaço acolhedor na unidade prisional, na qual as participantes se encontravam e sentiam-se acolhidas.

Os estudos de Delarossa sobre grupos de reflexão, a teoria de Winnicott sobre continente, desapossamento e formação de personalidade antissocial e as intervenções verbais de Hector Fiorini foram utilizados como referências teóricas e técnicas.

O objetivo dessa pesquisa é apresentar  de que forma a intervenção grupal com os referenciais supracitados aplicada em uma instituição asilar, com condições limitadas para o exercício da cidadania, foi uma proposta de ação que propiciou o resgate da cidadania , da auto percepção, bem instrumentalizou as participantes para o pensar na sua reinserção social. Mostrar ainda que a partir das reflexões e do acolhimento, as mulheres encarceradas são capazes de mudar a forma de viver, sentir e se comportar.

A presente pesquisa foi desenvolvida com um universo de mulheres encarceradas, que se encontravam cumprindo pena em regime semiaberto, podendo sair durante o dia ou finais de semana desde que tivessem uma atividade fim. As participantes eram pessoas, com pouco interesse no desenvolvimento escolar e profissional, baixa autoestima, conflitos familiares, sociais e sexuais. Observou-se também falta de conhecimento cultural e de responsabilidade social e ambiental.

2 METODOLOGIA

Para desenvolvimento desse estudo, optou-se pela pesquisa qualitativa, utilizando como método a Análise Documental dos Relatórios produzidos pela equipe de Psicologia. Em um universo de duzentos relatórios, foram selecionados aleatoriamente dez para análise documental. Sendo uma técnica decisiva para a pesquisa em ciências sociais e humanas, a Análise Documental foi indispensável para produção dos resultados. De acordo com Santos (2000), a pesquisa documental é realizada em fontes escritas, e dentre essas fontes encontram-se os relatórios. (Ludke e André, 1986).

3 INTERVENÇÕES VERBAIS NOS GRUPOS DE REFLEXÃO

Os autores optaram pelo uso de cinco tipos de intervenções, por considerarem essas como elementos fundamentais para o desenvolvimento do grupo, foram elas:  a) interrogar, que é um dos recursos essenciais ao longo de todo o processo terapêutico, não apenas no seu início. Perguntar é continuamente consultar a consciência do participante e é também sondar as limitações e distorções dessa consciência. b) Informar - o coordenador do grupo não é apenas um investigador do comportamento, mas também o veículo de uma cultura humana e psicológica. Sob este aspecto, o coordenador cumpre uma função cultural: é docente dentro de uma perspectiva mais profunda e abrangente de certos fatos humanos. Esta perspectiva é também alimentada com informações, já que o déficit de informação é um componente as vezes tão importante para a obscuridade e a  falsa consciência de uma situação. c) Confirmar - este tipo de intervenção é inerente ao exercício de um papel ativo do terapeuta na psicoterapia e, no nosso caso, do coordenador do grupo. A confirmação é uma maneira de se compreender os participantes, confirmando o que foi dito por ele. Retificar - a retificação permite ressaltar os escotomas do discurso, as limitações do campo da consciência e o papel das defesas desse campo. Retificar é pegar a própria fala do participante e dar um novo significado. e) Clarificar – a clarificação visa conseguir desembaraçar o relato emaranhado dos participantes a fim de recortar os elementos significativos e devolver de forma organizada..

O Grupo de Reflexão  é uma atividade grupal que nasceu da contribuição dos Grupos Operativos Pichon-Rivière, nos anos 60, direcionando-se inicialmente para aplicações no ensino, por parte de M. Bernard, Ulhoa, Ferschtut  e Dellarosa  na década de 70. O Grupo Operativo é a aplicação grupal do conceito de que, a fim de otimizar a resolução de problemas é necessário estudar não somente os problemas específicos que devem ser solucionados, mas também a forma em que uma determinada entidade aborda sua resolução. (FERNANDES e FERNANDES, 1999). Dellarosa (1979) criou os grupos de reflexão baseado na proposta de grupos operativos de Pichòn-Rivière, porém o que diferia era que a tarefa nos grupos de reflexão era refletir sobre um determinado tema. Por esse motivo, por considerar a relevância da reflexão para o processo de mudança, optou-se por trabalhar com grupos de reflexão.

Para análise dos discursos das participantes, utilizou-se conceitos da teoria Winnicotiana, mais especificamente os conceitos de ambiente facilitador, mãe suficientemente boa, relação mãe-bebê, holding,  espaço transicional, desapossamento.

ANALISE DAS INTERVENÇÕES VERBAIS

"O presídio parece um hospital de maluco, nós gritamos, xingamos, falamos que sumiu as coisas, mas depois encontra. Tudo acaba em briga. É difícil o convívio aqui. Ninguém se entende."

Nota-se nesse discurso que o ambiente é desfavorável. Não acolhe e não facilita o desenvolvimento pessoal e interpessoal. Para Winnicott, o ambiente facilitador é o momento em que os impulsos de agressividade são manifestados pelo bebê em relação à mãe. A mãe os suporta ao mostrar para o latente que não o abandonará. Na fala da detenta, observa-se que seu instinto agressivo não é amparado pelo ambiente, uma vez que este funciona como um reforçador da sua agressividade.

"As coisas são ruins aqui dentro e lá fora, mas aqui dentro é pior, porque você não consegue evitar. É um cheiro de mulher. Sempre vou pegar o café com um sorriso....,  e dizendo bom dia, mas as presas sempre me atendem mal..."

A psicóloga interroga: “Como você se sente, quando dá um sorriso e bom dia e as presas te atendem mal?" A detenta começa a chorar!

O espaço existente entre o bebê e a mãe é onde ocorre a construção do ego do latente, sendo denominado por Winnicott como espaço transicional. É um espaço de criatividades e sem limites, onde a criança projeta o seu inconsciente. De acordo com o exemplo exposto, pode-se visualizar no espaço criado entre a participante e a psicóloga para que ela crie, imagine e sinta, podendo assim se ouvir e recriar sua própria história.

Uma das participantes diz: "Eu estou na mão desse juiz, posso fazer o que, né...?  Só ficar na cama e chorar!!!"

Winnicott descreve três processos principais que acompanham o desenvolvimento do bebe: integração, personalização e adaptação à realidade. Esses processos são interdependentes e há uma superposição dos mesmos, porém não se consolidam ao mesmo tempo. São aquisições do ser humano nunca de todo completada, acompanhando nosso desenvolvimento por toda vida. Na decorrência de um desenvolvimento incipiente da sensibilidade profunda (que possibilita as sensações corporais de coesão e interligação) e do estágio precoce de um ego formado por  núcleos que não se relacionam, o bebê funciona logo após o nascimento como se fosse um somatório de partes físicas e psíquicas não integradas, necessitando do contato com a mãe para, aos poucos, adquirir a noção de um ser um todo unitário e coeso. A mãe suficientemente boa2 supre as necessidades básicas da criança (higiene, alimentação, carinho), assim como contem seus impulsos. Quando ocorre uma relação de dificuldade com o meio, como o exemplo acima, o indivíduo desintegra, vivenciado o desamparo. O ato de chorar expressa o desamparo. Nesse momento, faz-se necessário a figura da mãe suficientemente boa, pois, ela possibilita à criança a sua integração. Estar na mão do juiz é estar sob responsabilidade do outro e  ficar na cama e chorar é o abatimento frente a impossibilidade de lutar, de busca, de alcance dos objetivos de vida.

"...eu fiquei para receber nove cartas no dia do meu aniversário. Fiquei esperando e não chegou de todo mundo. Meu pai botou carta no dia 26 de junho e só recebi no dia 26 de setembro. Eu só saio para fazer o curso segunda, quarta e quinta. Quando me pedem para eu comprar cigarros , eu dou meu dinheiro. Eu quero que as pessoas tenham consciência dessa  minha situação. Eu passei a maior vergonha por causa da carta, gritaram comigo lá dentro, se a carta não chega, a culpa é do correio...". (Esta detenta era responsável pela entrega das cartas que chegavam para as outras detentas).

A psicóloga clarifica: "Estão me dizendo que a sensação é de ser humilhada quando você faz tudo para agradar e as pessoas não percebem. Dizer que não sentem a compreensão nem a gratidão das colegas é dizer que gostaria que as colegas olhassem o que vocês fazem de bom. Parece que estamos falando que aqui dentro também tem colaboração , uma tentar ajudar a outra e não apenas as brigas ou coisas ruins”.  

De acordo com a situação exposta, pode-se observar, segundo a abordagem Winnicottiana, que o bebê é dotado de uma constituição de tendência inata de desenvolvimento, motilidade, sensibilidade e pulsões instintas. Há, de início, um ego incipiente e despreparado para lidar com as demandas do Id, que são experimentadas pelo ego em desenvolvimento como se fossem forças externas, o ribombar de um trovão. Sendo assim, a intervenção feita pela psicóloga exemplifica a teoria de Winnicott, na relação mãe-bebê. A participante se apresenta fragilizada e a psicóloga atua no sentido de tentar reconstruir uma situação ambiental mais próxima à condição intra-uterina, assumindo o papel de ego auxiliar que fornece conforto e segurança.

Ao iniciar o grupo, uma das participantes perguntou: Por que vocês não vieram semana passada?". A psicóloga respondeu: "Nós estivemos aqui na semana passada, mas não conseguimos entrar porque era ponto facultativo." Uma das internas diz: Não avisaram nada para a gente. Ficamos esperando e pensando que vocês tivessem emendado o carnaval."

Observa-se que o grupo funciona como um holding e já faz parte do cotidiano das participantes, pois oferece o suporte psíquico, possibilitando a ressignificação dos conflitos internos e se fazendo assim necessário e solicitado. O grupo aqui se apresenta como um continente, necessário para o conforto a necessidade de estar no ambiente acolhedor. A necessidade de holding fica registrada na fala da interna. A equipe de psicologia representa o continente, a mãe suficientemente boa.

" Perdi meus pais muito cedo por morte. Fui morar com minha irmã que já tinha três filhos. O amor de  irmã, tio, primo não é o mesmo de mãe. Me sinto só.” A psicóloga retifica dizendo que de alguma forma ela teve o amor de mãe, quando morava com a mãe e quando a irmã assumiu o lugar de mãe da casa: “Podemos falar no grupo hoje sobre o que é amor de mãe?".

Segundo Winnicott, o desapossamento é perda de algo que foi positivo na experiência da criança. Entretanto, a retirada deste objeto foi anterior à integração feita pelo latente, o que causa um sentimento predominante de desamparo e solidão. Através do roubo se procura alguma coisa (objeto primário = mãe), em algum lugar (MELLO FILHO, 2011. A psicóloga se utiliza da técnica de retificar e interrogar, reorganizando o discurso e sentimento a partir da fala da participante e posteriormente interroga convidando o grupo para a reflexão.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir da análise dos conteúdos apresentados, pode-se observar que o grupo de reflexão tem funcionalidade na emissão de comportamentos das internas focados no sentimento, cuidados e angústia frente a dificuldades nas relações interpessoais. Os recortes não podem revelar toda a dinâmica do grupo, mas com dados levantados pelos autores desse artigo que participaram da equipe de psicologia nesta unidade prisional, pode-se afirmar que das 12 presas que participaram dos grupos no ano de 2011 a 2013, duas se formaram em auxiliar de cozinha pela Ong Gastronomia, uma trabalha na CEDAE, uma é palestrante junto a uma das coordenadoras do grupo de reflexão, trazendo a vivência real em uma penitenciária para a comunidade científica.

Os resultados apontam para sentimentos de desamparo, solidão, conflitos revelados no grupo. Tais sentimentos tem significativa influência do meio social que as mulheres em conflito com a lei e privadas de liberdade vivem, mas também trás no seu bojo angústias passadas, que não estão diretamente ligadas ao fato de estarem encarceradas. Considerando as técnicas utilizadas pela Psicologia, nota-se um uso mais frequente da clarificação e interrogação com resultados bastante positivos em relação a interação social e holding. A partir dos resultados obtidos, considera-se  que os grupos de reflexão com técnicas de intervenção verbal são de grande valia para promover acolhimento e autoconfiança nas mulheres privadas de liberdade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FERNANDES, Beatriz Silverio. Como trabalho com grupo de reflexão. Rev. SPAGESP,  Ribeirão Preto ,  v. 1, n. 1, p. 77-82,   2000 .   Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1677-29702000000100011&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 12  jun.  2016.
LÜDKE, M.; ANDRÉ, M. E. D. A. Pesquisa em educação: abordagens qualitativas. São Paulo, EPU, 1986.
SANTOS, Antonio Raimundo dos. Metodologia Científica: a construção do conhecimento. 3. ed.Rio de Janeiro: DP&A, 2000.
MELO FILHO, J. O ser é o viver: uma visão da obra de Winnicott. 2 ed. São Paulo : Casa do Psicólogo , 2011.