Avaliação da Vulnerabilidade ao Estresse em Profissionais Técnicos de Enfermagem que Atuam em UTIs

Avaliação da Vulnerabilidade ao Estresse em Profissionais Técnicos de Enfermagem que Atuam em UTIs

Maria Angélica Gabriel
Mestre em Psicologia Social pela Universidade Gama Filho (UGF)
Professora de Psicologia do Centro Universitário Augusto Motta (UNISUAM)

André Luiz Neves dos Santos
Acadêmico de Psicologia no Centro Universitário Augusto Motta (UNISUAM)

Sandro dos Santos Jacob
Acadêmico de Psicologia no Centro Universitário Augusto Motta (UNISUAM)

1 INTRODUÇÃO

Nos dias atuais, reconhecemos que o mundo do trabalho tem causado inúmeras doenças ocupacionais e que alguns segmentos de trabalho têm fatores que provocam o aumento de estresse dos trabalhadores. Algumas pessoas tem maior vulnerabilidade ao estresse que outras, haja vista que em um mesmo ambiente de trabalho temos pessoas que sofrem de estresse e outras que trabalham no mesmo setor não apresenta nível de estresse patológico. Dessa forma, podemos nos referir à vulnerabilidade que um grupo de pessoas apresenta aos fatores estressores do trabalho. No presente estudo, a proposta é avaliar a vulnerabilidade ao estresse de profissionais técnicos de enfermagem em UTIs (Unidades de Tratamento Intensivo). A vulnerabilidade pode ser entendida como a condição de risco em que uma pessoa se encontra. Um conjunto de situações mais, ou menos problemáticas, que situam a pessoa numa condição de carente, necessitada, impossibilitada de responder com seus próprios recursos a dada demanda que vive e a afeta. O Estresse significa "pressão", "tensão" ou "insistência". Pode-se definir estresse como um conjunto de reações fisiológicas necessárias para a adaptação a novas situações. A relação entre vulnerabilidade e estresse na UTI, no entanto, é mediada pela resiliência, ou seja, a capacidade do indivíduo de resistir e lidar com estressores existentes dentro de seu espaço de atuação nas mais complexas formas que se apresentam (FERNANDES, 2007).
Corroneti, Nascimento e Barra (2006) desenvolveram um estudo sobre o impacto do estresse vivido no setor intensivo do hospital, demonstram que o estresse compromete a qualidade de vida biológica e social dos profissionais além do trabalho. As autoras concluem que há diversos fatores estressores para a equipe de enfermagem na Unidade Intensiva (UTI), porém relatam que a principal causa de estresse foi o relacionamento interpessoal e a carência de recursos humanos e materiais. O estudo também revela que o estresse vivenciado rotineiramente na UTI resulta em irritabilidade, intrigas, ansiedade, desmotivação e baixa produtividade.
Ferraeze e Carvalho (2006) se propuseram a verificar os níveis de estresse dos profissionais que atuam no CTI, buscaram a perceber o perfil dessas pessoas, quanto aos aspectos pessoais e profissionais. Os resultados demostram que a maior parte dos profissionais apresentou sintomas de estresse físico e/ou psicológico. O objetivo desse trabalho foi avaliar a vulnerabilidade ao estresse de profissionais de enfermagem que trabalham em UTIs no Rio de Janeiro.

2 METODOLOGIA

O presente estudo foi realizado através de metodologia quantitativa e com amostra não probabilística, pois não houve como saber o número de técnicos de enfermagem no Rio de Janeiro, não indicadores do número de técnicos de enfermagem que atuam em UTIs no Rio de Janeiro. Sendo assim, a seleção da amostra dependeu do julgamento dos pesquisadores, ou seja, os pesquisadores usaram seu julgamento para selecionar os membros da população que são fontes de informações precisas (SCHIFFMAN e KANUK, 2000).
Os participantes da pesquisa foram submetidos à Escala de Vulnerabilidade ao Estresse no Trabalho (EVENT). O instrumento avalia o quanto as circunstâncias do cotidiano do trabalho influenciam a conduta da pessoa, a ponto de caracterizar certa fragilidade, ou seja, como os fatores estressores presentes no ambiente de atividade profissional, atingem diretamente ou indiretamente o trabalhador, fazendo com que ele sinta exaustão e comprometendo assim seu rendimento.
O teste relaciona-se com medidas de estresse, e grupos profissionais podem se diferenciar em comparação à intensidade com que percebem sua vulnerabilidade.
Á titulo de apresentação o EVENT é utilizado por psicólogos e aprovado em relação à confiabilidade e validade, junto ao Conselho Federal de Psicologia.
O contato com os participantes foi realizado por meio de e-mail ou telefone, onde foram convidados a participar da pesquisa sobre avaliação da vulnerabilidade ao estresse de técnicos de enfermagem que atuam em Unidades de Tratamento Intensivo do Rio de Janeiro. A aplicação do teste EVENT foi realizada individualmente, no Serviço de Psicologia da Unisuam, após o participante ter lido e sido esclarecido quanto ao Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) de acordo com a resolução 466/12 (CONEP/MS). O tempo máximo para a aplicação do teste é de 20 minutos e a aplicação será realizada em um único encontro. Depois de iniciada a aplicação, o pesquisador terá o cuidado de não distrair ou interromper os participantes. A escala varia de 0 a 80 pontos, e os fatores avaliados são clima e funcionamento organizacional – fator 1, pressão no trabalho – fator 2 e infraestrutura e rotina – fator 3.

3 ANÁLISE DOS RESULTADOS

Para análise dos resultados foi utilizada a tabela 41 do Event, por ser a tabela de análise da vulnerabilidade para a categoria profissional técnicos de enfermagem. Os resultados apontaram para significativa vulnerabilidade de estresse nos técnicos de enfermagem que atuam em CTIs ao serem comparados com a população em geral. Nota-se na Tabela 1 um alto índice de profissionais com alto nível de vulnerabilidade ao estresse nas três fatores (Fator 1- Infraestrutura e Rotina, Fator 2- Pressão no trabalho e Fator 3- Clima e funcionamento organizacional).

Tabela 1: Análise e classificação dos fatores de vulnerabilidade ao estresse

tabela 1 stress
Fator 1- Clima e Funcionamento Organizacional - nota-se que 70% dos participantes da pesquisa apresentam vulnerabilidade média superior ou superior à média da população em geral, o que significa vulnerabilidade relacionada a ambiente físico inadequado, chefes despreparados, dificuldades de progresso no trabalho, falta de perspectiva profissional, falta de plano de cargos e salários, falta de solidariedade, função pouco conhecida, impossibilidade de dialogar com a chefia, não saber como sou avaliado, não saber quem manda realmente no meu trabalho, não ser valorizado, salário inadequado para a função, ter autoridade rejeitada pelos iguais ou superiores e tom autoritário de meus superiores.

Fator 2- Pressão no Trabalho, nesse fator percebeu-se 65% dos participantes demonstraram vulnerabilidade média superior ou superior à média da população. Por pressão no trabalho, entende-se: acúmulo de trabalho faz trabalhos que não pertence à minha função, fazer o trabalho do outro, muita responsabilidade no trabalho diário, necessidade de ajudar colegas para fazer o serviço deles, novas obrigações, o meu erro afeta o trabalho dos outros, prazos para realização de trabalhos, responsabilidade excessiva, ritmo acelerado de trabalho, que atender muitas pessoas de uma só vez, ter mais obrigações que os demais colegas.

Fator 3 - Infraestrutura e Rotina - 90% dos participantes apresentaram vulnerabilidade média superior ou superior à média da população. O resultado demostra o quanto os técnicos de enfermagem que trabalham em CTIs apresentam alto índice de vulnerabilidade ao estresse. O acometimento dos profissionais está relacionado a jornadas dobradas, doença ou acidente pessoal, equipamento precário, licença de saúde recorrente dos colegas, mudança nas horas de trabalho, mudança no status financeiro, mudanças de chefias, perspectivas de ascensão vinculadas à ideia de transferência, pouca cooperação da equipe para trabalhos que deveriam ser feito sem conjunto, problemas com iluminação do ambiente, salários atrasados.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Com base nos resultados obtidos nessa pesquisa, considera-se que foram encontradas correlações significativas entre os resultados obtidos e a literatura a respeito do índice de vulnerabilidade ao estresse de técnicos de enfermagem em CTIs, indicando que os técnicos de enfermagem que trabalham em Centros de Terapias Intensivas tem alta vulnerabilidade ao estresse relacionado ao trabalho, mais especificamente a infraestrutura e rotina de trabalho, pressão no trabalho e clima e funcionamento organizacional. Tal vulnerabilidade afeta o desempenho da atividade profissional, podendo levar o profissional ao adoecimento frente a estressores externos, dificultando assim a sua prática laboral.
Objetivando um rendimento mais proativo para reduzir ou eliminar a vulnerabilidade, sugere-se que sejam criados dispositivos e intervenções com profissionais de saúde para estabelecer meios e atividades para aumentar a capacidade de enfrentamento ao estresse da equipe de técnicos de enfermagem dos Centros de Terapia Intensiva.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CORRONETI, Adriana; NASCIMENTO, Eliane Regina Pereira do; BARRA, Daniela Couto Carvalho; MARTINS, Josiane de Jesus. O estresse da equipe de enfermagem na unidade de terapia intensiva: o enfermeiro como mediador. Arquivos catarinenses de medicina 2006;35(4): 3646.
FERNANDES, Firmino Sisto e cols. Escala de vulnerabilidade ao Estresse no Trabalho: EVENT. São Paulo, 2007.
FERRAREZE, Maria Verônica Guilherme; FERREIRA, Viviane; CARVALHO, Ana Maria Pimenta. Percepção do estresse entre enfermeiros que atuam em Terapia Intensiva. Acta paulista de  enfermagem.,  São Paulo ,  v. 19, n. 3, p. 310-315, Sept.  2006.   Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-21002006000300009&lng=en&nrm=iso>. Acesso em  05  Dec. 2015.
CONEP (MS) – Conselho Nacional de Saúde. Disponível em <  http://conselho.saude.gov.br/web_comissoes/conep/index.html>
SCHIFFMAN, L. KANUK, L. Comportamento do consumidor. 6.ed. Rio de Janeiro: LTC Editora, 2000.